
- Já tenho medo de te contar certas coisas... mas enfim!
- Não receies. Mantenho o teu nome e o do hospital no anonimato. É importante a informação que vais dando.
- Eu sei que sim. Mas sinto-me mal. Devia ter denunciado, especialmente por lidar com isto de tão perto. Não é fácil, preciso de manter o meu posto de trabalho.
- Sim, isso é de extrema importância
- No hospital onde trabalho não existe qualquer terapêutica retroviral. Sei disto porque temos um doente que era medicado e não trouxe terapêutica de casa e desde o dia 6 que não a toma porque não há...
- E já lá vão quinze dias sem tratamento para o HIV…
-Uma unidade local de saúde é um centro hospitalar formado por centros de saúde do distrito e respectivo hospital central. O que quer dizer que aqui devia ser o cerne dos tratamentos e recursos, onde a população do distrito pode recorrer para toda e qualquer situação.
-Incluindo tratar doentes infectados pelo HIV como é óbvio
- Existe a farmácia do hospital, claro. Existe um infectologista e consultas mas unidade de infectologia não. Os doentes com HIV são internados no isolamento do serviço de medicina interna e não existe terapêutica retroviral na farmácia do hospital.
- Custa-me ouvir que os doentes infectados com o HIV vão para o isolamento pois a infecção pelo HIV tem meios específicos de se transmitir e o vírus não se espalha pelo ar nem pelos perdigotos de um espirro.
- Penso que neste distrito não existe um plano organizado de acompanhamento a seropositivos. Se o doente está a desenvolver um sarcoma de Kaposi, é porque algo não está a ser feito correctamente. Para variar nem sequer tem análises de carga viral ou contagens das cd4, embora seja assistido por um infeciologista.
- O Sarcoma de Kaposi , um tipo de cancro que afecta a pele e provoca lesões em órgãos internos, é comum em pessoas em pleno estado de SIDA e sem defesas do sistema imunitário. Como é possível um especialista médico não o saber e deste modo pedir de imediato a carga viral e a contagem de células CD4?

Este é o panorama actualmente em Portugal nos hospitais fora dos grandes centros urbanos.
Muitos seropositivos têm de se deslocar centenas de quilómetros para uma consulta de especialidade e abastecimento de medicamentos para o HIV, ou porque têm medo que o seu estado clínico seja revelado ou porque as unidades hospitalares não têm condições para os seguirem.
É preocupante esta situação e constatarmos que a prestação de cuidados de saúde a doentes infectados pelo HIV não é igual em todo o país.
A colocação de pessoas com HIV no isolamento lembra os tempos em que a SIDA apareceu e era desconhecida. Pensamos nós que as coisas estão a mudar…